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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NOSTALGIA DO ENTARDECER




















`A tarde, a alma cura-se das feridas,
Mas, quantas cicatrizes há na lembrança!
Passam  p'la alma muitas queixas doloridas,
Há um véu em tudo o qu' a vista alcança.

Horas de sombra: O crepúsculo avança.
Nostalgia, filigrana entre-tecida
Com fios d' ouro e prata, já qu' a lembrança
Deixa mazelas pelos tecidos da vida.

O nosso sol vai fugindo abandonado,
Vem a lua que em seu lugar aparece,
Traz ao coração coisas do nosso passado.

A saudade vem misteriosa e calma.
Escondem-se os passarinhos... Anoitece!
Tudo se cala e anoitece a alma!

Modesto

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O MEU OUTONO

















Vi, voando, a caminho do ocidente
O bando ideal das minhas ilusões.
Do sol, vi um raio trémulo e dormente
Que as dourava com seus últimos clarões.

Iam já bem longe, corriam doidamente:
Esperança, amor... meigas aspirações...
Junto, as belas aves iam tristemente,
Tão nostálgicas que partiam corações.

E lá, mais além, vi pássaros tristonhos
E, perto deles, ia Vénus lacrimosa,
Brilhando na mais deserta imensidade.

Lá, no ocaso do sol, iam meus sonhos...
Ficou comigo a chorar, linda, formosa,
Uma tard' encantada e minha saudade.

Modesto

terça-feira, 27 de outubro de 2015

DIA DE CHUVA















Céu cinzento como pesada tampa
Deixa a minha alma atormentada.
A fria cor sobr' a terra se estampa,
O dia fica em noite pardacenta.

A chuva cai a cântaros e parece
Um grão turbilhão de sinistros varões.
Minha mente vai ficando fria, tece
Paciente... Ai! Fantásticas visões!

Ouvem-se os sinos tocar retumbantes
Com badaladas que ecoam errantes
E se transformam em brado furibundo.

Eu sinto por mim deslizar tristemente
O dia sombrio chorar cruelmente
E rogo ao sol que visite o mundo!

Modesto

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

SAUDADE D'OUTROS TEMPOS

























Quando, à noite, silente vou pensar,
Convoco as recordações do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar
E choro pelo tempo desperdiçado.

Afogo-me numa lágrima mui rara
Pela tarde que logo anoiteceu.
Fico com a dor qu' o amor superara
E deploro o que desapareceu.

Lastimo o meu erro já esquecido
E ponho a pena a lembrar as sagas...
Mas que adianta chorar o perdido?

Então, volto a pagar as contas pagas...
Mas penso sempre nesse tempo amigo,
Fica a saudade do tempo vivido.

Modesto

domingo, 25 de outubro de 2015

POLÍTICO DE QUEM SE FALA




















Uni-vos Povos do mundo
Que bem precisais de paz.
Homem faz jogo imundo,
Só por inveja o faz.

Ele vai na dianteira
E quer ficar bem no mundo,
Aduba a sementeira
Com o seu ódio profundo.

O Povo votou prá paz,
Pra governar coligados.
O homem se satisfaz,
Procurando aliados.

A seara cultural
Que dita nossa cultura
É do voto universal:
Quem ganha: - Legislatura!


A paixão do poder traz
Também muitas ratoeiras:
Ele não vai ser capaz
De defender as fronteiras...

Mas o capital atrai...
É preciso colocar
Os amigos. E lá vai
Esforço que fomos dar.


Nenhum Povo se aferra
No teu governo falaz.
Prepara-te par' a guerra
Ou vira já: faz a paz!

Feliz de quem, na pobreza,
Se contenta, satisfaz.
Orgulho, fama avareza...
Nunca trouxeram a paz.

Modesto

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

UM NOVO AMANHECER















Manhã d' Outono é fado,
Traz sempr' uma bela luz.
Quando está a meu lado
É candeia que reluz.
Procuro o sol com fé,
Mesmo quando não se vê.

Criança, queria ver
Ond' o sol s' escondia.,
Para melhor poder ser
Como o sol que nascia:
Subi ao alto do monte
A sondar o horizonte.

Nasce belo e brilhante,
Ilumina quant' existe,
Aparece de rompante...
Olhá-lo ninguém resiste!
Marcou-m' a vida futura,
Deu-me fome d' aventura.

Tod' a manhã ele traz
Vida segura e certa.
Eu sentia-me capaz
De partir à descoberta:
Ver o sol na partida
Todos os dias da vida.

Modesto

terça-feira, 20 de outubro de 2015

AFECTO E BEM QUERER

























Há amor no meu coração partido,
Pranto pelos meus olhos derramado
E há frio em fogo convertido,
Sentimento em lume disfarçado.

Abrasas meu peito enternecido,
Pranto no rosto corre desatado,
Como cristal em chamas derretido,
Amor doado aprisionado.

É fogo que não passa brandamente
E sinto que queima à porfia...
É um amor sofrido e ardente.

Para temperar esta tirania,
Eu quis qu' ele fosse amor prudente
E permito parecer chama fria.

Modesto

sábado, 17 de outubro de 2015

ECOLOGIA



















Onde o homem não chega, tudo é puro
Como a pureza da primeira infância,
Tudo é claro: aurora. dia 'scuro,
Tudo é medida, ritmo, concordância.

Hoje, já não há promessas de futuro
E até um vendaval é dissonância.
O homem não deixou de fazer o muro,
A Natureza aumentou a distância.

Com as suas mãos perjuras, de fel e sarro,
Este homem, com as suas mãos de barro,
Fez da Natureza seu gozo, prazer...

Mas, não é tarde pra sacudir a lama:
Ergue-t' ao alto, levant' a Deus a chama
E recomeça a tudo refazer.

Modesto

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TARDES DE OUTONO



















As belas tardes ficam mais cinzentas,
As lindas árvores, nuas sem folhagem
E as ruas mais quietas, sonolentas,
Toda a gente vestiu nova roupagem.

O sol perdeu o brilho, 'stá-s' afastar
E, entre nuvens, vai desaparecer...
Mas o riso das crianças a brincar
São saudades do Verão que vi morrer.

O Outono dá as suas boas vindas
Ao Inverno que está para chegar,
Com o frio e suas noites infindas.

Nos campos, à sombra, vê-se a geada
Com um vento esquisito a soprar...
Deixa a gente e a terra congelada.

Modesto


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

COMEÇARAM A PERSEGUI-LO

Houve um tempo em que Aquele que agora desprezas estava acima de ti; em que Aquele que agora é homem era eternamente perfeito. Ele estava no princípio, sem causa; depois, submeteu-Se às contingências deste mundo. [...] Fê-lo para te salvar, a ti que O insultas, a ti que desprezas a Deus só porque Ele tomou a tua natureza grosseira. […]

Ele foi envolvido em panos mas, ao levantar-Se do túmulo, libertou-Se da sua mortalha. Deitaram-No numa manjedoura, mas foi glorificado pelos anjos, anunciado por uma estrela, adorado pelos Magos. [...] Teve de fugir para o Egipto, mas libertou esse país da superstição. Não tinha «forma nem beleza» (Is 53,2) diante dos seus inimigos, mas para David era «o mais belo dos filhos dos homens» (Sl 44,3) e resplandeceu no alto da montanha, mais deslumbrante do que o sol (Mt 17,1ss). Como homem foi baptizado, mas como Deus apagou os nossos pecados; Ele não precisava de ser purificado, mas quis santificar as águas. Como homem foi tentado, mas como Deus triunfou, Ele que «venceu o mundo» (Jo 16,8). [...] Teve fome, mas alimentou milhares, Ele que é «o pão vivo descido do céu» (Jo 6,48). Teve sede, mas exclamou: «Se alguém tem sede, que venha a Mim e beba» (Jo 7,37). [...] Conheceu a fadiga, mas é o repouso de todos os que «andam sobrecarregados e abatidos» (Mt 11,28). [...] Deixou que Lhe chamassem «samaritano e possesso do demónio» (Jo 8,48), mas é Ele quem salva o homem que caiu nas mãos dos salteadores (Lc 10,29ss) e afugenta os demónios. [...] Ora, mas é Ele mesmo quem escuta as orações. [...] Chora, mas é Ele mesmo que faz cessar as lágrimas. É vendido por preço vil, mas é Ele quem resgata o mundo e por um grande preço: o seu próprio sangue.

Como ovelha é conduzido à morte, mas é Ele quem conduz Israel às verdadeiras pastagens (Ez 34,14), tal como hoje o faz com a terra inteira. Como cordeiro cala-Se, mas Ele é a Palavra anunciada pela voz daquele que clama no deserto (Mc 1,3). Foi enfermo e ferido; mas é Ele que cura toda a doença e toda a enfermidade (Mt 9,35). Foi elevado sobre o madeiro e nele foi pregado, mas é Ele quem nos restaura pela árvore da vida. [...] Morre, mas faz viver e destrói a morte. Foi sepultado, mas ressuscita e, subindo ao céu, liberta as almas dos infernos.      

(S. Gregório de Nazianzo)



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

GOSTAR DA BELEZA





















Muitos gostam da beleza amada,
Por ser raro assombro, com certeza.
Mas só a vê a alma bem formada:
Tem que a procurar na Natureza!

Os dotes naturais de qu' é formada
São filhos da mais pura singeleza
Que, em verso, fazem encantada
Na lealdade, amor e firmeza!

O seu cândido ser eu conheço
Porque seus afectos lhe mereço:
Ela tem o valor que se presume.

Em mim, de amor não morre o lume,
Amo de coração o seu perfume
Da bela Natureza que conheço.

Modesto

terça-feira, 13 de outubro de 2015

BELEZA E AMARGURA




















Existe sempre beleza num' amargura
Secreta e esquecida que é latente,
Oculta em si e a quem a vê obscura,
Ambígua e indecifrável duplamente.

E não é igual à vivência que dura
Que não a pode entender qualquer vivente.
E quanto mais dentro de nós se desfigura,
É como o orvalho ou a brisa rente.

Se a amargura é a voz do acaso,
A beleza traz dois pilares que dão azo
Para nos preparar transacção bem constante.

E à própria beleza tudo foi dado
Para abrir a porta ao juvenil estado,
Para crescer e viver em cada instante.

Modesto

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

FLOR DA ALMA PERCEBIDA
























Brisa da tarde nos florais do campo,
Um cântico de beijos ao relento
Que é coisa de que gosto tanto,
No feitiço d' amor à flor do tempo.

Desse amor eterno à mercê
Duma canção tangida pelo vento
A ressoar na alma, não se vê...
Como amor no som do pensamento.

Queria amor são na minha vida,
Conhecer alma boa e remida,
Alma duma flor ao alvorecer.

E uma canção de ser docemente
Percebida, bem leve e presente
Que pudesse mesmo perceber.

Modesto

terça-feira, 6 de outubro de 2015

IDEAL



















Eu quero encontrar, por onde for,
Um ideal como ânforas de vinho
E beber, como num jardim, a flor
E ser como canteiro de carinho.

Vou amar, com ternura  e jeitinho,
Aos outros dar amor só por amor,
Levantar os caídos no caminho
Sem força, em pânico e em dor.

Serei sonho como amor rendido
Ao destino dum fulano banido
Que já canta sem gozo nem motivo.

Vou levá-lo p'las sendas do amor
Para tenda com jardim em flor
E d' amor venha a ficar cativo.

Modesto


sábado, 3 de outubro de 2015

DE ROMÂNTICO A ANSIOSO



















Romântico poeta dos vinte anos,
Escrevi e deixei versos juvenis.
De alma cândida, já com desenganos...
Eram sonhos que me fizeram feliz.

Extravasei os meus íntimos arcanos,
Junto de belas musas que tanto quis,
E fui projectando sempre novos planos,
Partindo pra me tornar num aprendiz.

Cheguei e encontrei um mestre augusto
Que imaginou onde eu chegaria
Com esse talento jovem e robusto.

Então, quando atingi maior idade,
Disse que me dedicasse à poesia:
Daí veio a minha ansiedade...

Modesto

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

QUE QUEREIS FAZER DE MIM?



















Sou Vosso, Sois o meu Fim.
Que quereis fazer de mim,
Soberana Majestade,
Sabedoria Eterna,
Bondade qu' até m' enferma,
Ó meu Deus, Suma Bondade?
Olhai prá minha ruindade!
Sou pecador, sou assim...
Que ireis fazer de mim?
Eu sei que Vós me criastes.
Também sei que me remistes.
Não sei porque m´atraístes
E tanto me suportastes,
E por mim sempr' esperastes
E me salvastes, por fim!
Que quereis fazer de mim?
Mandai, pois, meu Bom Senhor
Que seja Vosso criado
De tud' o que me foi dado,
Mesmo sendo pecador,
Meu Amado, Bom Senhor!
Vedes-m' aqui fraco, ruim...
Que quereis fazer de mim?
Dou-Vos o meu coração,
Ponho-me na Tua Palma
Com a vida, com a alma,
Com o corpo, afeição,
Deste-me a Redenção!
A Vós entregar-me vim:
Que quereis fazer de mim?

Modesto