16_08

LIÇÕES DA VIDA


















Aprendi, nos livros, grego, filosofia...
Dissequei teoremas, relatividade...
Ensinaram-me muito e eu aprendia,
Só não m' ensinaram o que é a saudade!

Ensinaram-me geometria, latim...
O Norte e o Sul a todo o vapor,
Aprendi tudo... Algo aprendi por mim,
Pois ninguém me ensinou o que é amor!

E nada me ensinaram da fantasia!
Eu, durante as aulas, deixava-me sonhar:
A lua, estrelas, beleza, poesia...
Queria aprender como era amar!

Se eu escrevesse as coisas que já sei...
Viajei plo mundo por terra, céu e mar,
Mas também sofri! E quanto eu já chorei!
Mas aprendi de tudo e já sei amar!

Modesto

VIVE SORRINDO


















Não deixes murchar a rosa do sorrir,
Fá-la abrir como luz na 'scuridão,
Flor, alegria... refulgem no provir,
Flor da tristeza, mata-a em botão.    

Não deixes o pranto plo rosto cair.
A vida é breve pra sofrer em vão.
Os olhos que choram também podem rir...
É melhor sorrir que ter desilusão.

Lamurias destilam fel de tristeza            
Pró infeliz, o sol é vela acesa,
Lágrimas enfraquecem o sentimento!

Tu procura pensamento positivo:
Ser feliz é sonho de quem está vivo.
Alegria não se dá com sofrimento!

Modesto

OS PÍNCAROS DAS MONTANHAS

























Agora, deslumbrada alma, perscruta
O tempo geológico int'rior
Desta elevação da crosta hirsuta
Onde rebentam contracções de dor!

Naquele curso da terráquea luta,
Quantos desejos férvidos do amor
Daquela geração de pedra bruta
Dorme agora recalcado de dor?!

Como naqueles relevos orográficos,
Tão inacessíveis aos humanos tráficos
Onde o sol poente ama jazer,

Quem sabe, alma, se o que não existe
Não viv' em gérmen no agregado triste
Dessa síntese sombria do seu ser?

Modesto

PASSEIO PELOS MONTES




















Por montanhas, vales... tudo nevoento,
Toda a paisagem num burel de bruma...
Bocejo de tédio e desalento
Qu' ora se adensa, ora se esfuma.

Alta planície além se apruma,
Num cabeço de monte que se vê lento,
Correm, além, turbilhões de espuma
E um rio serpenteia com alento.

Desperta a minh' alma adormecida,
A tristeza foi-se, algo me convida,
Numa ânsia e emoções estranhas.

Depois duma tristeza indefinida,
Vem o sol! Tão bela sua aparecida...
São tão belos estes vales e montanhas!

Modesto

NIZE E A ESTRELA

























Eu vi linda estrela, enamorado,
Fiz logo uns lindos votos de querê-la,
Pois que bem merece o meu cuidado.
Mas, logo vi Nize e achei-a bela!

Mas qual escolherei, se neste estado,
Não sei escolher Nize de uma estrela?
Se Nize vier aqui, fico abrasado,
Se a estrela vier, morro por ela!

Mas ah! Nize não me quer por sua amante
E estrela não me quer por inconstante,
Pois sabem que estou preso noutros braços.

Ou faço de dois semblantes um semblante,
Ou divido meu peito em dois pedaços...
Oh! Vem, Cupido, soltar-me destes laços!

Modesto


O SONETO NÃO ACABA MAIS


















Os críticos repudiam o soneto!
Dão outras formas às suas produções:
Chamam-te arcaico, dizem-te obsoleto,
Mas Horácio chama-t' Arte, Pisões.

Mas tu não morrerás: És o esqueleto
Da ideia que resiste às construções.
O pensamento vive em ti completo,
De Ronsard, de Petrarca, ou de Camões.

Disse Boileau que vales todo um poema!
Dentro de ti, como que num cofre, coube,
Chave d' ouro, a inspiração de Arvers,

O poeta qu' em quatorze versos soube,
Na arte da tua síntese suprema,
Eternizar o amor duma mulher!

Modesto

NUMA SÓ SOMBRA
















Passeemos tu e eu devagarinho,
Sem ruído e sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
Seja pisada sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações num torvelinho
Dessas folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber este precioso vinho,
Da rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier... deixá-la vir.
E se a noite quiser pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas.

De costas para o sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.

Modesto

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...