17_06

A ALMA É A ESSÊNCIA


















Quando a morte chegar ao pé de mim
E, com voz soturna, me disser: É hora!
Sei que a vida não termina assim...
Não sentirei pena de me ir embora.

Como a rosa que murcha num jardim
E não verá jamais a luz da aurora,
Também o meu corpo vai chegar ao fim,
Como gota d' orvalho se evapora.

No caminho difícil da existência,
Sou eu também parcela dessa essência
E a alma é a força que m' habita.

Quem me criou e me habitou foi Deus,
Me sustentou e guiou os passos meus,
A alma Nele vive, é infinita!

Modesto

O QUE É VIVER?


















Viver... o que é viver? É caminhar
Em passo decidido ou inseguro
Sem olhar para trás e sem perguntar
Onde leva a 'strada, a que futuro?

É pensar, é sentir... ou só respirar
Em campo aberto ou num buraco 'scuro?...
É juntar forças e conseguir saltar,
Mesmo qu' à frente esteja um muro?...

Como marioneta, obedecer
A quem sabe mover os seus cordelinhos.
Mostrando o que não é, mas que parece?...

É rir, chorar, agir... O que é viver?
Andar sem planos a desbravar caminhos?...
É sonhar?... O mistério permanece!

Modesto

A LUZ DA NATUREZA



















A luz que eu gosto, luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza!
Todas as vezes que por ela chamo,
Ensina-me segredos de beleza!

Mostra-m' a graça dos pequenos ramos,
A força daqueles que têm grandeza.
Fala-me da vida, de combate calmo,
Ajuda a suavizar rudeza!

Dá-me enlevo, deslumbra imenso,
Dá fé aos meus sonhos que condenso
Na esfera dos constelados mantos!

Defende-me dos perigos com crença
E cerca-me de uma paz imensa,
Tira-me a solidão e os prantos!

Modesto

A MESA DO POBRE



















O pobre, ó meu Deus, quanta grandeza
Nessa brandura, quanta majestade!
Ser grande sempre, n' infeliz pobreza...
Como é qu' há-de viver, como há-de?

Lá vem uma lágrima! E à mesa,
Suas baixelas são d' imensidade...
Nos seus manjares, há sempre surpresa:
Pratos de couves... mas felicidade!

Num instante, olhos rasos d' água,
Na ligeira oscilação da mágoa,
Faz a sua oração bem sonora!

Seu sereno pensamento expande...
Olha prós filhos, pequeno e grande
E diz-lhes: O mar é grande e chora!

Modesto

SOU LIVRE

















Sou livre da matéria escrava,
Arrancando grilhões que me flagelam.
A alma empresta-me sua lava...
Sou livre de entrar nos Dons que selam.

Livre da humana terrestre baba
Dos corações frios que me regelam,
Contra a infâmia que deprava,
Logo que os sentidos se revelam.

Sou livre para viver bem mais puro
Junto à Natureza, mais seguro
Do seu amor e toda a justiça.

Sou livre para sentir a beleza
E gozar da universal grandeza,
Sou livre na paisagem que buliça.

Modesto

A BONDADE DA MINHA AMADA




















É a bondade que te faz formosa:
Ela diviniza-te... transfigura,
Perfuma-te com perfume de rosa
És a beleza da sua ternura!

Teu ser angélico de luz bondosa
Verte no meu ser a subtil doçura,
Encanto, uma paz maravilhosa,
Uma celeste límpida frescura!

Contigo, afronto todos os ismos,
Os profundos e mórbidos abismos
Que busquem tentar-me no meu caminho.

Na suave e doce claridade,
Consolo de amor dessa bondade,
Ponho na minh' alma o teu carinho.

Modesto

O CAVADOR



















Com a lanterna dum sonho bem restrito,
Vai para os campos, os mais intragáveis...
Na alma, profundo soluçado grito,
Vai abafando as queixas implacáveis.

Ânsias, desejos... coração contrito
Sente. Vê no céu estrelas inefáveis,
O cavador observa o infinito...
Cava desde altas eras insondáveis!

E quanto mais ele nos seus campos cava,
Mais a lavoura se transforma em lava
E seu suor corre todas as distâncias.

Alto levanta a lanterna do sonho!
E com o seu corpo pálido, tristonho,
Cava objectivos com eternas ânsias!

Modesto

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...