24_12

MEUS VERSOS

 De dia ou noites gerados,
Com sol ou lua presentes,
Recordam os meus achados
E as virtudes das gentes.

Lembram jardins perfumados
Ou selvagens matagais;
Quem os ler mais demorados.
Neles verá meus sinais.

Os sinais duma alegria
Que brotou em profusão;
Ou a dor como sangria
Que me rasga o coração.

Quem me ler há-de encontrar, 
Nestes meus versos escritos,
Uma noite de luar
Ou uns ásperos granitos.

E talvez encontre ainda
Uma luz abençoada
Que torna a vida mais linda,
Desde a noite à madrugada.

Modesto

QUEM ME QUISER CONHECER

 Se alguém quiser um dia conhecer-me
E entrar um pouco nesta intimidade,
Bata na minha porta para ver-me
Que eu lhe darei entrada de verdade.

Nesta verdade humana que sou eu,
Com jardins e lixeiras juntamente:
Há um rosal e um matagal que cresceu
Nesta minha existência inconsistente.

Mas o meu interior vai todo impresso
Nestes versos que são o meu espelho:
Quem os ler e reler desde o começo,
Verá porque tão cedo fiquei velho.

Há imensa poeira nesta estrada
E algum perfume neste meu viver...
Bem perto do caminho, a encruzilhada,
Perto do sol da aurora, o entardecer.

Modesto

24_11

BÚSSOLA PERDIDA

 Quantas vezes, Senhor, por mim chamaste,
E tantas vezes, não Te respondi;
E quantas vezes, Tu me procuraste
E, como o filho pródigo, fugi!

Quantas vezes, amável, me esperaste
Naquela encruzilhada que escolhi;
E quantas vezes, Tu me acompanhaste
Ao longo do caminho que segui!

Desiludido, no meu caminhar,
Confiante, pensei, Te iria achar;
Porém, quando cheguei, tinhas partido!

Quem se afasta de Deus, cai lentamente
E, no seu caminhar, está ausente,
A Bússola que me havia conduzido!

Modesto

PAISAGEM

 Quando abres dos teus olhos as janelas
E vês no céu azul nuvens infindas,
Talvez tu penses que por meio delas,
Podes descortinar outra mais lindas.

Vês muito ao longe as velas dum moinho
Que no lento girar lembram o pão
Que irás alimentar no teu carinho
Os peregrinos da desilusão.

Vês um rebanho calmo na colina
E um lavrador que passa na campina
Feliz sonhando o seu futuro pão.

Sentirás o pulsar desse moinho,
O pão do amor, da paz e do carinho
E que se chama humano coração.

Modesto

SONETO DE AMIZADE

 Talvez alguém estes meus versos vai ler
E não entenda que o amor neles palpita,
Nem que a saudade trágica, infinita
Por dentro deles sempre está a viver.

Talvez, amigo, não fiques a perceber
A paixão que me enleva e me agita,
Como uma alma dolorosa e aflita
Que num sentimento pode desfalecer.

E talvez ao leres-me, com piedade,
Digas, a sorrir, num pouco de amizade,
Boa, gentil, carinhosa e franca:

Ah! Bem conheço o teu afecto triste...
E na minha alma o mesmo existe,
Tens amizade que raro se alcança!

Modesto

O SORRISO INTERIOR

 O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo este brasão augusto
Do grande amor, da grande fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsia e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em redor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe esta glória frente à Natureza,
Este esplendor, todo este largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores...
E, para ironizar as próprias dores,
Canta por entre as águas do dilúvio!

Modesto

24_10

EMOÇÕES PROFANAS

 Pompas, pompas, pompas soberanas
Majestade serena da escultura
A chama da suprema formosura,
A opulência das púrpuras romanas.

As formas imortais, claras e ufanas,
Da graça grega, da beleza pura,
Resplendem na angélica brancura
Desse teu corpo de emoções profanas.

Cantam as infinitas nostalgias,
Os mistérios do amor, melancolias,
Todo o perfume das eras apagadas...

E as águias da paixão, brancas, radiantes,
Voam, revoam, de asas palpitantes,
No esplendor do corpo arrebatadas!

Modesto

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...