quarta-feira, 17 de junho de 2026

NA MINHA FORJA

Estão aqui meus versos fabricados
Nesta forja subtil, do coração:
Verdes, roxos, azuis ou encarnados,
Lembram a dor ou são uma canção.

São meu luar nas noites de invernia,
São as velas acesas na caverna,
A caverna onde vivo noite e dia,
A caneta vem a ser minha lanterna.

São deste coração, seu alimento,
São contas dum rosário doloroso,
Mas dão vitalidade ao pensamento,
Perfumam meu caminho sinuoso.

Podes me ler com alma de criança,
Ou com alma de gente já crescida,
E podes encontrar uma esperança,
Ou encher de amargura a tua vida.

Modesto

domingo, 7 de junho de 2026

PARA MEUS FILHOS

Jesus, Deus Filho, o encanto das crianças,
Quando na Cruz, de angústia espedaçado,
Em Sangue casto e límpido banhado,
Manso, tão manso como as pombas mansas;

Embora as duras e afiadas lanças 
Com que os Judeus, tinham, de lado a lado,
Seu Coração puríssimo trespassado,
Inda no olhar Lhe raiavam esperanças.

Por isso, ó filhos, meus amores - se a esmola
De algum conforto essencial não joga
Por nós - é forçoso conduzir a Cruz!...

Eu, meus filhos, pesaroso e triste:
Se, vossa vida só pra este mundo existe,
Ah! Meu Deus, para que morreu Jesus?...

Modesto

quinta-feira, 28 de maio de 2026

ERMIDA

Morava na Capela esbranquiçada,
Com Seu Manto de Luz, a Virgem pura;
Tinha o rosto vestido de alvorada,
Irradiava o Seu olhar, doçura.

Na Sua festa vinham os romeiros
Com cânticos, com flores e orações...
E mostravam nos trajes domingueiros
A alegria e o amor dos corações.

Depois da festa, a Virgem de Luar,
Tinha férias na Sua Capelinha;
E resolveu, então, pra se ocupar,
Voar do Seu altar, como andorinha.

E ia pela aldeia e povoado
Visitar os doentes, os vizinhos...
E levava-lhes o Bálsamo sagrado,
Mudava em rosas, todos os espinhos.

Entrava nos casebres, moradias,
Abençoava velhos e crianças,
Espalhava calor nas noites frias, 
Dava aos desanimados esperanças.

Modesto

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A LUZ DA AURORA

Põe a tua alma francamente aberta
Ao sol que pela campina faísca,
Que o sol para a tua alma velha e prisca
Deve ser como um clarim de alerta.

Desperta, pois, por entre o sol, desperta
Como de um ninho a pomba quente e arisca
À luz da aurora que dos altos risca
De listrões de ouro a vastidão deserta.

Vai por Maio em flores gorgolejando
Como pássaro azul com canção leve 
Que os ventos vão nas árvores deixando. 

E tira da tua alma doce e amiga,
Almas serenas, puras como a neve, 
Almas mais novas do que a aurora antiga!

Modesto

sábado, 9 de maio de 2026

MARIANA

Vi-te crescer! Tu eras uma criança
Mais linda, mais gentil, mais delicada:
Tinhas no rosto as cores da alvorada
E o sol disperso pela loira trança.

Asas tinhas também, as da esperança...
E de tal sorte eras subtil e alada
Que parecias ave arrebatada
Na Luz do Espaço onde a razão descansa!

Depois, então, fizeste-te menina,
Visão de amor, puríssima, divina,
Perante a qual ainda hoje me ajoelho.

Cresceste mais! És bela e moça agora...
Mas eu, que acompanhei toda essa aurora,
Sinto bem quanto estou a ficar velho.

Modesto

segunda-feira, 4 de maio de 2026

POSSO DAR-TE UM CONSELHO?

Não passes a correr pela campina,
Desce mais devagar por esse monte...
Pára, e descobrirás em cada esquina
Sorrisos perfumados e uma fonte.

Há alados orféus à tua espera,
Assobios e gritos que não vês;
Mesmo que em ti não haja primavera,
Surgirá, com certeza, em qualquer mês.

Expande a tua alma atribulada,
Nela, poemas põe, mesmo sem rima;
Sentirás que ela está purificada,
Com um fogo que aquece e que te anima.

Notarás que tens um novo coração,
Mais próximo de ti verás o Céu;
Alguém verá em ti uma canção,
E pensará que Deus te apareceu.

Modesto


sábado, 25 de abril de 2026

PECADITO

Tinha uma fisga brutal,
Feita com muita arrogância, 
De matar todo o pardal
E ganhar muita importância.

Atirei ao passarito,
Acertei-lhe na pernita...
Dei o dito por não dito:
Mas que pontaria a minha!

Ferido, a mal voar,
Zombou ele docemente:
O próximo vais falhar,
Ficarei muito contente.

Aos céus bradei, pois então,
E fiquei a reclamar,
Exigindo protecção
E da afronta me vingar.

Mas a voz do passarito
Era a voz da consciência.
Entendi o pecadito
E ganhei em sapiência.

Modesto

NA MINHA FORJA

Estão aqui meus versos fabricados Nesta forja subtil, do coração: Verdes, roxos, azuis ou encarnados, Lembram a dor ou são uma canção. São m...