20_11

JARDIM


Eu sentei-me num banco do jardim
E bem perto de mim, sorriam flores,
Ofertando-me beijos de carmim
A fim de aliviar as minhas dores.

Na ramagem das árvores havia
O gorjeio feliz da passarada,
Qu' aos poucos, nest' alma atribulada,
A luz da Primavera oferecia.

A sintonia natural encheu
O meu peito de músicas divinas...
E pareceu-m' ouvir, vindo do céu,
Coro angelical, com vozes finas.

E meu choro - cruel monotonia -
De vez findaram como por encanto.
Vieram os sorrisos d' alegria,
Esta amargura transformou-s' em canto.

Agradeci ao banco do jardim  
Às aves, às corolas, à ramagem,
A pureza e paz dum Querubim,
Qu' ao coração me troux' uma mensagem.

Modesto



 

O TEMPO



 Ninguém, por mais que lute mansamente,
O tempo deterá no seu caminho.
Finda, renasc' o tempo num repente,
Das próprias cinzas faz o próprio ninho!

O tempo vai passando pela gente,
Tão leve, tão subtil, tão de mansinho,
Que quase não se nota nem se sente:
O tempo  nasce e morre caladinho.    

Passa por nós o tempo infinitivo,
Ninguém percebe o seu correr esquivo.
Ri-se de nós... a ninguém sorri!

Ai! O tempo inviso vagabundo!
Só ele goza este prazer jucundo
De nos fazer correr atrás de si...

Modesto




AURORA








Amanhece novo dia,
Que de noite adormecera,
E de contente sorria
Prá luz qu' 'stava à 'spera.

E logo de madrugada,
Encheu a terra d' encanto,
Como celeste embaixada,
Que desceu dum lugar santo.

E eu qu' estava à janela
Descobri nessa aguarela
A voz de um rouxinol,

Que surgiu na branc' aurora,
Aprendi a ver de fora
Paisagem do arrebol!

Modesto
 

20_10

O MEU DESTINO É O CAMPO


 








Sonhei com minha terra pequenina,
Alegre e soalheira. onde a giesta
Ensinava a viver vida modesta
Qual foi a de Jesus na Palestina.

Sonhei com ovelhinhas na campina
E cordeirinhos brancos na floresta,
Com andorinhas esvoaçando em festa
Sobre o regato de água cristalina.

Sonhei com levantar de manhazinha,
Pra ver as aves cantar ladaínha
De bênçãos e louvor à luz do dia.

Pois o meu sonho tão fagueiro e lindo,
Passados tantos anos... não é findo,
Até no peito cresce dia a dia...

Modesto.

PARAÍSO PERDIDO









Eu tinha o céu na terra, podeis crer,
Um céu pleno de aromas e de sol,
Onde os ecos da voz do rouxinol
Embalsamavam todo o meu viver.

Como eu era feliz, sem pretender
Ter a beleza subtil do girassol
E nem invejar os tons do arrebol
Ou a brancura linda do bem-me-quer!

Meu céu de estrelas lindas a brilhar
E coros de Anjos brancos a cantar
As trovas tão divinais do Paraíso,

Desfez-se - e que saudade! - num segundo,
Quando saí da terra e fui pró mundo...
Minha mãe abraçou-me com seu sorriso!...

Modesto
 

NOITES DE OUTUBRO









Belas noites claras de lua cheia!
Oh! No vosso seio, noites charmosas,
Minh' alma canta como a sereia
E vive cantando num mar de rosas!

Ó noites queridas que Deus prateia
Com a luz dos sonhos das nebulosas;
Belas noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!

Vós sois com' um rio de luz sagrada
Onde, sonhando, passa embalada
Minha esperança de mágoas nua...

Lindas noites claras de lua plena
Que encheis a terra de paz serena,
Eu vos amo tanto, noites de lua!

Modesto
 

20_09

PASSEIO PELOS BOSQUES


 








Com versos viajo num mundo paralelo,
Pois a vida real nem sempre me agrada.
Lá, nos fascinantes bosques, há a grã fada!
Aqui julgam-me... Lá, me pertenc' o martelo!

Absolvo-me a cada frustração ideal,
Concedo à emoção uma nova chance
Que já não é a primeira, nem de revanche,
Experimento regozijos sem igual...

Assim, o poder transforma o final triste
Em sonhos belos e no que de bom existe,
Passeio vivo, livre passaporte tenho.

Ao recordar a purificante magia
Que m' alimenta a alma e poesia...
Então, volto renovado no meu empenho.


Modesto


POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...