24_10

BELEZA DAS CATEDRAIS

 Pelas bizarras, góticas janelas
De um templo medieval o sol ondula:
Nunca os vitrais viram coisas mais belas
Quando, no ocaso, o sol as doura e oscula.

Belas e multicores aguarelas
Sobre um lindo céu que além se azula...
Calma, serena, divinal, entre eras,
A pomba, branca como os anjos, arrulha.

Rezam de joelhos anjos de mãos postas
Através dos vitrais, e nas encostas
Dos montes a claridade a ondear...

É a lua de Deus que, nas curvas meigas,
Foi ondular pelos vergéis e veigas,
Magnólias e lírios desfolhar!

Modesto

MULHER DO MEU PASSADO

Quanta mulher no meu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa,
Se delas veio o sonho que conforta...
A tua vinda foi três vezes mais santa!

Erva do chão que a mão de Deus planta,
Folhas de rojo murchas à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Serás a mulher mais linda que encanta!

Mas eu sou a manhã: Apago estrelas!
Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás-de encontrar ainda...

Modesto
 

QUANDO EU PARTIR

 Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há-de crescer-me a dor de tu ficares!
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita!

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita...

Nesse teu rosto de maior bondade
Quanta saudade, que atroz saudade...
Quanta tristeza por nós ambos, quanta?

Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!

Modesto

OS ANJOS CANTAM HINOS ETERNOS

 Bendito, misericordioso Uno e Trino,
Imenso, inconcebível e infinito.
Em Vós a mente não compreende o divino
E, pois, canta sem cessar eterno «Bendito».

Santo, Misericordioso, Criador,
Inconcebível poder, mas cheio de amor tanto,
Adorar-Vos é do nosso ser o penhor,
Catando o nosso hino eterno: «Santo, Santo, Santo...»

Bendito o misericordioso eterno amor,
Muito além da safira, do celeste manto,
Assim a corte dos espíritos em louvor
Entoam seu hino eterno: «Três vezes Santo...»

Modesto


24_09

A ÚNICA ATITUDE IMORTAL

  Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado de tudo,
De uma luz imortal, transcendente.

Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente...
E abandonar o sujo cornudo,
O sátiro da carne impenitente.

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito rugido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
E no Silêncio emudecer olhando.

Modesto


FAÇAMOS UMA NOVA CRUZADA

 Vamos saber das almas os segredos,
Os círculos patéticos da vida,
Dar-lhes a luz do Amor compadecida
E defendê-las dos secretos medos.

Vamos fazer dos áridos rochedos
Manar a água lustral e apetecida,
Pelos ansiosos corações bebida
No silêncio e na sombra d´´arvoredos.

Essas irmãs furtivas das estrelas,
Se não formos depressa defendê-las,
Morrerão sem encanto e sem carinho.

Paladinos da límpida Cruzada!
Conquistemos sem lança nem espada,
As almas que encontrarmos no Caminho.

Modesto

FLOR DO MAR

 És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumoso, frio
Que pões rede de sonhos ao navio
E o deixas baloiçar, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afecto,
Dormências nervosas, o sombrio,
Turvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas e revoltoso aspecto.

Num fundo de púrpuras e de rosas,
Surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços...

Modesto

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...