24_07

FORAM-SE AS ILUSÕES

 Os meus amores vão-se por mar fora,
E vão-se por mar fora os meus amores,
Com sede, a murchar, como estas flores
Sem mais orvalho e a doce luz da aurora.

E os meus amores não virão agora,
Não baterão as asas multicores,
Como as aves mansas dentre os esplendores
Do meu olhar, do meu prazer de outrora.

Tudo emigrou, rasgando a esfera branca
Das ilusões, tudo em revoada franca
Partiu, deixando um bem-estar saudoso.

No fundo, ideal de toda a minha vida
Qual numa taça a gota indefinida
De um bom licor antigo e saboroso!

Modesto


NÃO ME APARTES DE TI

 Se me aparto de Ti, Deus da bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade?!

Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível!
Se a Teus Olhos, na Cruz, sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!

À suave esperança me entregaste,
E o preço do Teu Sangue Precioso
Me afiança que não me abandonaste.

Se justo castigar-me Te é forçoso,
Lembra-Te que Te amei e me criaste
Para habitar contigo o Céu lustroso!

Modesto

AMOR NUM SONETO

 Fique o amor onde está! Seu movimento
Nas equações marítimas se inspire
Para que, feito o mar, não se retire
De verdes áreas do vão lamento.

Seja o amor como vaga ao vago intento
De ser colhida em mãos; nela se mire
E, fiel ao seu fulcro, não admire
As enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
Da razão de si mesmo, e se contente
Em luzir para o lume que o insolara.

Seja o amor como o tempo: Não se gaste!
E, se gasto, renasça, noite clara
Que acolhe a treva, e é clara novamente!

Modesto

AMOR QUE DEIXA SAUDADE

 Delicado, suave como o vento,
Devastador como um furacão,
Resumindo-se num belo momento,
Povoado de grande emoção.

Pode durar infinito segundo,
Ou ser breve por um ano inteiro.
Pode parecer o melhor do mundo
E entre todos ser o verdadeiro.

Pode vir carregadinho de dúvidas
E ser dúvida enquanto durar.
Mas que dure pela eternidade...

Mesmo que fale por toda a vida,
- A vida que se dá para amar -
É grande amor que deixa saudade!

Modesto

24_06

GLÓRIA

 Florescimentos e encantamentos!
Glória às estrelas, glória às aves, glória
À Natureza! Em minh´alma flórea
Com mais flores flori de sentimentos.

Glória a Deus invisível dos nevoentos
Espaços! Glória à lua merencória,
Glória à esfera dos sonhos, à ilusória
Esfera dos profundos pensamentos.

Glória aos Céus, glória à terra, glória ao mundo!
Todo o meu ser é roseiral fecundo
De grandes rosas de Divino brilho.

Almas que floresceis no Amor eterno!
Vinde gozar comigo este fraterno,
Esta emoção de ver nascer um filho!

Modesto


PARA FILHOS E NETAS

 Versos feitos por mim na mocidade
O mérito só tem um sentimento:
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.

Propondo a fantasia à bondade
Melhor encontrei neste ornamento,
No estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber diz-me a idade.

É isso que vos quero ensinar,
Amando-vos qual Pai e terno Avô,
A quem prás suas câs engrinaldar

Melhor só podia pra onde vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós índa mais sou.

Modesto

O VERBO DO POETA

 Nasceu, conjugou o verbo amar d´amor
Em tudo o que é o perfeito infinito
Com sua voz, na sua alma, num só grito,
Criou-se uma estrela no seu esplendor...

Vieram nuvens escuras e... Chorou!
Ficou tão triste, desdenhado e restrito,
O poeta do amor com verbo bonito
Que ao cantar, vagueou, sorriu e amou...

Mas antes que lhe viesse mais chorar,
Quais as luas que divisava no profundo,
Se na sua alma não tivesse o sofrer?

Que seria o seu cantar neste mundo?
De onde lhe viria o verbo amar
Se o amor é cantar, chorar e viver?

Modesto


POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...