24_01

HARPA E LIRA INSEPARÁVEIS

 Partida em noite de Janeiro frio
Gelou-me o coração, gelou-me todo.
"Novos Lírios de Maio" - último apodo
Da nossa lira, mortos num baixio...

A vida continua: e aquém-rio,
É para mim, nos laços dum engodo;
Além-rio, pra ti, libando o bodo
Que sendo eterno, não terá fastio!

A minha lira, tristemente pobre,
E a tua harpa harmoniosa e nobre
Hão-de este hiato converter em crase.

Cantar a Flor de Maio, a Flor de Lis,
Vai ser nosso labor - tu já sorris?! -
Da nossa Vida Eterna a eterna fase!...

Modesto


TANTO SE ME DÁ...

 Acordei mal disposto esta manhã
E apenas vos direi qual o motivo,
Pra que não me oferteis o lenitivo
À dor que no meu peito alerta está.

Em minh´alma ora canta o sabiá,
Ora crocita o corvo vingativo
E qualquer deles, em definitivo,
Um dia certamente vencerá.

Se o primeiro me adoça e existência,
O segundo me ensina a intransigência
Com que é preciso enfrentar as feras.

Não escolho nenhum. Vença o mais forte
Qualquer deles me serve de consorte
Num mundo todo feito de quimeras.

Modesto

MINHA MÃE

 Beijo-te a mão que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger.
Teu puro amor o coração me acalma!
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço da tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer - Mãe - este M tão perfeito.
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Modesto

23_12

VIDA

 Os dias são os grãos de trigo puro
Colocados nas mós da nossa vida.
Os anos são os pães, que de fugida,
Comemos no presente e no futuro.

São muitas primaveras de viagem,
Desde o raiar daquela madrugada,
Uma aurora que trouxe uma mensagem
Escrita numa folha esbranquiçada.

Vou escrevendo, pela vida além,
Páginas de cristal, desde a partida;
Pois o Senhor escreverá também
No Seu Livro Divino, a minha vida.

Que a minha vida seja assinalada
No Livro eterno, o Livro do Senhor,
E que ela esteja bem fotografada
Numa Divina Página de Honor.

Modesto

MADRUGADA DE NATAL

 A cortina da noite foi rasgada
Pelo clarim de um Anjo despertado...
Alguém antecipou a madrugada
E o tempo de sorrir era chegado.

Porém o astro-rei inda dormia,
No seu colchão de nuvens, nessa aurora...
Inda o melro dormia e não estendia
Na brisa a sua cítara canora.

Porém o mais formoso e cativante,
Desse arrebol, assim antecipado,
Era o sorriso do Menino Infante,
Que o clarim matinal tinha acordado!

Modesto


SÓ ME PERTENCE O MOMENTO PRESENTE

 Quando olho para o futuro, o medo me assalta,
Mas afinal, porquê o destino perscrutar?
A mim, só o momento presente me exalta
talvez o provir, em mim, não possa morar.

O tempo que passou não está em meu poder
Algo mudar, remediar ou acrescentar
Nem os sábios nem os profetas o puderam obter.
Que fique em Deus o que o passado em si contar.

Pertences-me por inteiro, ó momento presente,
Tenho-te por inteiro e de ti quero uso fazer.
E, embora seja fraco e insuficiente,
Deus me conceda a graça com Seu imenso poder.

Assim, na Vossa Misericórdia confiando,
Vou indo pela vida como uma criança,
Meu coração cada dia confiando,
Por Vossa Glória, ardendo em Amor e Esperança.

Modesto

VIAGEM DA VIDA

Chegado a este ponto da viagem
Parei, olhando para a minha aurora,
E descobri feliz uma mensagem
Que foi comigo pela estrada fora.

Daquela fonte clara veio um rio
Que teve açudes, lagos e correntes,
Deu origem também a um baixio
Onde encalhei meus sonhos inocentes.

Ainda ouvi um rouxinol cantar
No salgueiro da minha mocidade,
E vi a flor de lis desabrochar
E seu odor me oferecer a liberdade.

_ Senhor, a minha vida desde a fonte
Correu serena e límpida, por vezes;
Mas encontrou ravinas, nesse monte,
Com frustrações, angústias e reveses.

E, depois deste meu descer tão vago,
Com socalcos, barrancos e vertentes,
Espero ainda achar aquele lago
Com as águas serenas, transparentes.

Modesto


POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...