22_09

RIBEIRO

 Ouve-se a voz distante do ribeiro,
Saindo branca e clara da montanha...
Vai engrossando no desfiladeiro, 
Pois leva dentro um coração fremente.

Nos açudes, a voz é de cristal,
É mais sonora, chega mais distante...
Nos ramos dos salgueiros, um pardal,
Tinha um cantar alegre e triunfante.

E o ribeiro caminha entre colinas,
Levando dentro a sua alma pura,
E há gritos com harpas nas campinas
Saudando esse ribeiro com doçura.

Ribeiro amigo, invejo a tua vida,
A tua vida alegre e festejada;
Talvez na foz, recordes a partida
Que na montanha foi imaculada.

O AMOR PERFEITO

Sonhei que era milhafre ou que era açor
E que aprendera o jeito de voar
De asas abertas, livre, no esplendor
Do céu azul, dos astros, do luar...

E com o frenesi do beija-flor
E com uma prece ao meu anjo tutelar
Chegara à fonte mítica do amor
Perfeito, belo, eterno como o mar.

Mas, oh! Desilusão!... Não achei nada
Do amor ideal, lampejo da alvorada,
Na imensa região, deserta e fria.

De asas quebradas, vi com sobressalto,
Que o amor que buscava ao voar tão alto,
Não é mais, afinal, que uma utopia. 

O RIO E EU

 O rio de cristal tem duas margens,
Duas margens na vida tenho eu:
O rio leva em si muitas mensagens,
O rio desta vida emudeceu.

Há nas margens do rio salgueirais,
Onde os pássaros cantam seu trinados,
Onde as gentes felizes dão sinais
Da alegria de sonhos azulados.

Aquele rio corre calmamente
E dentro leva peixes bem nutridos,
O meu rio tem quedas na corrente
E leva tubarões impedernidos.

As margens do meu rio, diferentes, 
Mostram o sim e o não da minha vida:
O bem e o mal sempre estão presentes,
Desde a minha nascente já perdida.

22_08

VINHA CAINDO A TARDE

 Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A humidade
Aveludava o musgo com tanta suavidade
Qu' havia  de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse água ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
Foi então que senti sorrir o meu desgosto....

Ao fundo, o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: Dir-se-ia
Prolongarem a cor ingénua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma e uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

CONTRIÇÃO

Eu fui, talvez, Senhor, que mais gritei:
«Seja esse Jesus crucificado!» 
Eu fui, talvez, Senhor, que mais rasguei
Esse Teu lado com o meu pecado.

Entre os homens, talvez, eu mais pequei,
Seguindo livre o meu caminho errado...
De tantos filhos pródigos, deixei
Mais cedo o Teu Solar Imaculado.

Mas voltei, com a alma amargurada,
Por ser mais uma ovelha desgarrada,
O Pródigo com fome do Teu Pão.

E, mesmo regressando ao fim do dia,
Inda espero comer dessa Iguaria
Na Mesa divina do Teu perdão.

CONTRASTE

 Quando partimos, no verdor dos anos
Da vida, pela estrada florescente,
As esperanças vão connosco à frente
E vão ficando pra trás os desenganos.

Rindo, cantando céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz
E vemos que sucede exatamente.

O contrário dos tempos de rapaz:
Os desenganos vão connosco à frente
E as esperanças vão ficando pra trás.

22_07

PECADOS MEUS

 Pecados meus sempre amarguraram
Minha vida - humana condição!...
Ficou amargurado o coração
E meus sonhos rosados acabaram.

Nos prados e jardins que me mostraram
Coloquei as sementes da ilusão...
Chegou a Primavera e o Verão,
Floriram ramos, frutos maduraram.

Porém, chegou o desabrido Outono
E os meus frutos ficaram sem dono
E não foram colhidos para a mesa.

Chegou depois o Inverno regelado,
Frio ventoso neste descampado
E comi as bolotas da tristeza.

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...