23_02

VI-ME AO ESPELHO

 Eu vi meu rosto, num antigo espelho,
Porém, nele, jamais eu pude ver
A minha alma, com o seu viver...
Mas descobri que já estava velho.

E recordei o principal da vida,
Esta minha alma que trago, de começo,
Estava no meu corpo apodrecida
Por causa de um antigo meu tropeço,

E fiquei a chorar, pois não podia
Voltar ao berço límpido de outrora
Para recomeçar, com ousadia
E ter de novo o sol da minha aurora.

Qualquer humano rosto é a imagem
Da alma que no corpo sempre mora.
Nesse rosto, se vê a sua imagem
O seu espelho, que se vê por fora.

A VIDA É UMA PASSAGEM

 Não é vida nem morte: É uma passagem.
Nem antes nem depois: Somente agora.
Um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneiro de mim, onde a coragem
De quebrar as algemas, ir-me embora.
Se tudo o que ria em mim, agora chora,
Se já não me seduz outra viagem.

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
Sem uma flor a abrir na minha mão,

Sem um búzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido,
Um pássaro a morrer no meu coração.

NÃO SEI DIZER COMO ME SINTO.

 Não sei dizer aqui como me sinto...
Há todo um caos de mente e sentimento
Que faz dentro da alma este tormento,
Deixando-me perdido, num labirinto...

Estou sozinho, seguindo a passo lento,
Mesclando o que já sei com o que sinto,
Conforme o que é saber e o qu´é instinto,
No rumo da saída em meu intento.

Compreendo que o processo é de mudança
Em que a maturidade, enfim, me alcança,
Deixando para trás quem fui um dia...

Enfim, como me sinto? Só, perdido,
Talvez com´um falcão, no chão, ferido,
Sem asas pra voar como queria!...

ENCONTRO

 Pelo caminho agreste, ia contente,
Levava nos meus olhos um luzeiro,
No coração pulsava um fogo ardente,
A lembrar esse amor cego e fagueiro.

E não fazia caso da paisagem
Que à esquerda e à direita me sorria;
Pensava na mensagem que trazia,
Para dá-la no fim dessa viagem.

Porém, na minh' alegre caminhada,
E quando o sol no céu, bem alto ia,
Encontrei certa luz na encruzilhada,
Que fez mais luminoso aquele dia.

E voltei para trás enamorado
Da preciosa pérola que chegou...
Tempos depois o sino repicou
Para alegrar um límpido noivado.

23_01

ASPIRAÇÃO SUPREMA

 Como o cego e o nu pede um abrigo
A alma que vive a tiritar de frio,
Lembra um arbusto frágil e sombrio
Que necessita do bom sol amigo.

Tem ais de dor de trémulo mendigo
Oscilante, sonâmbulo, erradio,
E como um ténue, cristalino fio
D´estrelas, como etéreo e louro trigo.

E a alma aspira o celestial orvalho,
Aspira o céu, o límpido agasalho,
Sonha, deseja e anseia a luz do oriente...

Tudo ela inflama de um estranho beijo,
E este anseio, este sonho, este desejo
Enche as esferas soluçantemente.

FRUTO ENVELHECIDO

No coração do envelhecido fruto
É só desolação e é só tortura.
O frio soluçante da amargura
Envolve o coração num fundo luto.

O fantasma da dor pérfido e astuto
Caminha junto a toda a criatura.
A alma por mais feliz e por mais pura
Tem de sofrer o esmagamento bruto.

É preciso humildade, é necessário
Fazer do coração branco Sacrário
E a hóstia elevar do sentimento eterno.

Em tudo derramar o amor profundo,
Derramar o perdão no caos do mundo,
Sorrir ao Céu pra fugirmos do Inferno.


 

SE ME QUISERDES CONHECER

 Se um dia me quiserdes conhecer,
E penetrar na minha humanidade,
Como foi, neste mundo, o meu viver,
Lede os meus versos feitos com verdade.

Vereis que tive escuridão e luz,
Primaveras, canções e fantasias,
Outonos sem colheitas, mas orgias,
Invernos com a sombra da cruz.

Tive estradas e sendas perfumadas,
Algares e barrancos abissais,
Muitas noites escuras e estreladas,
Virtudes e pecados capitais.

E, nos versos que fiz e vos deixei,
Descobrireis meu coração inteiro:
Com eles, eu chorei e me alegrei,
Choro e riso de um homem verdadeiro.

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...