23_01

INVERNO LÍRICO

 Nesta manhã de Inverno agreste e fria,
Quis a tristeza entrar dentro de mim...
A Natureza está pálida, sombria,
Não há flores nem sol, no meu jardim.

Cai do céu,, em cristais de nostalgia
A chuva, como lágrimas sem fim...
Chega até mim o canto da poesia
Que o Inverno, para os poetas, é assim!

Nesta manhã, a mão da Natureza
Escreve mais um poema de tristeza,
Na expressão do seu amor materno!

Mas se o Inverno é triste, inspira os poetas,
Também neles florescem as violetas,
- Vem-nos de Deus o Seu poema eterno!



22_12

FRATERNIDADE

 Bateu serenamente o meio dia
Numa cadência de anjo rezador.
De mãos posta rezei, rezei de cor
As preces que em pequeno já sabia.

E aquele Mal estranho que doía
No cerne de minh'alma, aterrador,
Deixou-me então e foi o seu furor
Cevar num pobre irmão em agonia.

Pois fiquei triste assim com esta troca;
Tive pena de quem não abre a boca
Para rezar a prece que alivia:

- Corri atrás daquela dor vadia
E consegui que para mim voltasse
E ao meu irmão sem fé não molestasse.

SONETO DO NATAL

 Que neste Natal a melodia do amor
Seja cantada nos quatro cantos
Do mundo, com notas de louvor,
Entoadas com ternura e encanto.

Que o eco desta sublime canção
Fique no ar, na Luz de Jesus Menino,
Irradiada do Seu berço Divino,
Trazendo momentos de reflexão.

Reflexão de um acontecimento
Angelical que marcou com magia
A chegada do Seu nascimento.

Levando a humanidade a acreditar
No amor, na paz, esperança e alegria,
contagiando-nos com o acto de amar.


HORA BÍBLICA

 Deus já mandou no homem. Hoje, não.
Cada qual se fez deus e Deus morreu.
Agora, mandas tu e mando eu.
A Lei de Deus cedeu à prescrição.

Qualquer fedelho nasce sabichão:
É doutor-nado; fútil chichisbéu,
Tira a gravata e fala de alto ao Céu:
A Lei sou eu e tudo o mais é vão.

Voltou a Hora Bíblica: «Sereis 
Iguais a Deus; como Ele ficareis
Com ciência total, em plena luz».

Há só leve diferença, desta vez:
Os dois, então, cobriram a nudez.
Agora, adões e evas andam nus...

22_11

INTERVALO

 Não digas nada, que eu também não digo.
Ando dentro de mim a procurar-me,
Pretendo finalmente encontrar-me
E não quero falar senão comigo.

Não tomes a minha ausência por castigo
Nem o meu silêncio por sinal de alarme:
As saudades, um dia, hão-de obrigar-me
A correr para ti, como um mendigo.

Desejoso de paz e de conforto,
Que ladrões vis deixaram quase morto
Sobre a lama dos córregos monteses.

De mim, desiludido, então verás
- Porque eu te chamarei - trazer-me a paz
E ajudar-me a vencer os meus reveses...

PRÍNCIPE LUSITANO DOS POETAS

 Como és grande, Camões, no teu destino,
Na grandeza dos versos que cantaste...
Deus quis pôr no teu estro algo divino,
Pois que ninguém cantou como cantaste!...

«Lusíadas», são Glórias! E são Hino!
Com que a Pátria bem alto coroaste...
Teus versos foram feitos de ouro fino,
Por Amor, tanto Amor, glorificaste!...

Nestes meus simples versos, eu te canto,
São meu singelo ramo de violetas,
Pois deixaste entre nós eterno pranto!...

Eu as deponho a ti de amor repletas,
A ti que és Portugal e te amam tanto,
- A ti, eleito Príncipe dos Poetas!

NO DIA DOS MEUS 80 ANOS

 Meus filhos, hoje chegou o dia
Da luz da razão, oh! qual tocha acesa,
Me vem conduzir á simples Natureza...
Pois é hoje que o meu mundo principia.

A mão que gerou meus passos, guia.
Desprezo ofertas de uma vã beleza,
Sacrifico as honras e a riqueza
Às Santas Leis do Filho de Maria.

Estampo na minh´alma a caridade,
Porqu´ amar a Deus, amar os semelhantes
São os eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são ideias delirantes.
Procuro ser feliz na eternidade,
Pois o mundo são brevíssimos instantes.

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...