22_12

HORA BÍBLICA

 Deus já mandou no homem. Hoje, não.
Cada qual se fez deus e Deus morreu.
Agora, mandas tu e mando eu.
A Lei de Deus cedeu à prescrição.

Qualquer fedelho nasce sabichão:
É doutor-nado; fútil chichisbéu,
Tira a gravata e fala de alto ao Céu:
A Lei sou eu e tudo o mais é vão.

Voltou a Hora Bíblica: «Sereis 
Iguais a Deus; como Ele ficareis
Com ciência total, em plena luz».

Há só leve diferença, desta vez:
Os dois, então, cobriram a nudez.
Agora, adões e evas andam nus...

22_11

INTERVALO

 Não digas nada, que eu também não digo.
Ando dentro de mim a procurar-me,
Pretendo finalmente encontrar-me
E não quero falar senão comigo.

Não tomes a minha ausência por castigo
Nem o meu silêncio por sinal de alarme:
As saudades, um dia, hão-de obrigar-me
A correr para ti, como um mendigo.

Desejoso de paz e de conforto,
Que ladrões vis deixaram quase morto
Sobre a lama dos córregos monteses.

De mim, desiludido, então verás
- Porque eu te chamarei - trazer-me a paz
E ajudar-me a vencer os meus reveses...

PRÍNCIPE LUSITANO DOS POETAS

 Como és grande, Camões, no teu destino,
Na grandeza dos versos que cantaste...
Deus quis pôr no teu estro algo divino,
Pois que ninguém cantou como cantaste!...

«Lusíadas», são Glórias! E são Hino!
Com que a Pátria bem alto coroaste...
Teus versos foram feitos de ouro fino,
Por Amor, tanto Amor, glorificaste!...

Nestes meus simples versos, eu te canto,
São meu singelo ramo de violetas,
Pois deixaste entre nós eterno pranto!...

Eu as deponho a ti de amor repletas,
A ti que és Portugal e te amam tanto,
- A ti, eleito Príncipe dos Poetas!

NO DIA DOS MEUS 80 ANOS

 Meus filhos, hoje chegou o dia
Da luz da razão, oh! qual tocha acesa,
Me vem conduzir á simples Natureza...
Pois é hoje que o meu mundo principia.

A mão que gerou meus passos, guia.
Desprezo ofertas de uma vã beleza,
Sacrifico as honras e a riqueza
Às Santas Leis do Filho de Maria.

Estampo na minh´alma a caridade,
Porqu´ amar a Deus, amar os semelhantes
São os eternos preceitos da verdade.

Tudo o mais são ideias delirantes.
Procuro ser feliz na eternidade,
Pois o mundo são brevíssimos instantes.

22_10

SÓ PARA TI, FLORBELA

 Não te invejo o talento. O meu me basta!
Jamais quis competir, meter-me em brios.
E quanta vez, com a coragem gasta,
Me afoguei em terrores!... Mas venci-os!

A vida atraiçoou-me, foi madrasta
Do mais duro rigor! E, se desvios
Tentei, pra fugir-lhe, logo a vergasta
Ergueu em golpes duros...E eu sofri-os.

Assim foi meu caminho sinuoso
Tal a tua vida vazia e triste,
Aceito-a qual resgate - o meu fadário.

Eu sou um homem forte e corajoso,
Tu foste a mulher fraca, desististe...
Eu levarei a cruz ao meu calvário!

TENTATIVAS

 Ensina-me a viver, que inda não sei.
Depois de tantos anos praticar
Não aprendi, segundo a Tua lei,
A dar a outra face e a perdoar.

Sem conta são as vezes que tentei
Estoicamente ouvir, sofrer, calar...
E quase o consegui, mas vacilei
Ao reflectir: - terei de perdoar!

Ingratidões, invejas, desamor
São como punhaladas no meu peito,
Feridas que não param de doer.

Meu coração, o velho lutador,
Amarfanhado em seu reduto estreito,
Hesita.. É tão difícil esquecer!

MÃOS CHEIAS DE POEMAS

 É por ti e por mim que ergo este canto,
Este grito de amor em nossas veias...
Trazemos, de poemas, as mãos cheias,
Pra espalhar pla cidade e dar-lhe encanto!...

E, porque esta cidade amamos tanto,
Quem dera sermos canto de sereias...
Voar além do sonho e das ideias,
Pla imensidão incógnita do espanto!...

Porém, temos no peito acesa a chama,
De quem pela cidade luta e ama
De coração erguido e mãos abertas!...

O nosso grito erguemos na poesia,
Com coragem, esp´rança e teimosia,
- Porque somos seus filhos, somos poetas!

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...