17_06

SEGREDO DA VIDA

















Há um sentido profundo
Por cima de cada coisa,
No caos que vive o mundo,
Ordem em cada um poisa.

Com trabalho incessante,
Sem olhar prás nossas dores,
Um sazonal int'ressante,
Que desabrocha as flores.

Há perfeição invisível
No silêncio do ser:
Sentimento é possível,
Com mágoas a florescer.

Só há ordem s' há querer
E é preciso concórdia.
Suaviza nosso ser,
Se houver misericórdia.

Modesto

NASCI AO PÉ DOS MONTES

















Eu nasci ao pé dos montes
E do Douro a cantar
A canção das frescas fontes,
Ond' aprendi a rimar.

Eu sei a língua das fontes,
Falo com águas do mar...
Lá, vi belos horizontes,
Nesta terra singular.

Senti-m' irmão dessas águas,
Entendo bem suas mágoas,
Compreendo seus segredos.

Gosto do rochedo mudo,
Conheço lá quase tudo,
Sinto-m' irmão dos penedos.

Modesto

SINTOMAS DE MELANCOLIA















Terra minha de infinitos lados,
Verdes vales entre serras nascida,
Tempos idos e amores passados...
Levei comigo mágoa e ferida!

As aves entoam suas cantigas,
Árvores sobr' o Douro debruçadas,
Águas que parecem sempre antigas,
Crepúculos de sonho fatigados!

Lá, adormeci olhando a lua,
Aqui, vejo luar da minha rua
Ancorada na minha solidão.

Às vezes parece a lua dela
Quando a vejo da minha janela...
Chora de saudade meu coração!

Modesto

ESPÍRITO SANTO

























Espírito Santo, por Ti eu clamo,
Eu Te cravo em mim. Por Ti espero
A cada instante. Eu Te amo,
Sabendo que vens a mim e Te quero.

Deus Amor, eu Te dou o que mais quero,
Acredito em Ti e Te reclamo.
Sapiência eterna, venero
A Tua divindade, Te proclamo.

Fortaleza, sinto-Te necessário.
A Ti me uno, eu que já fui vário
E fraco para todas as batalhas.

Conselheiro, na glória firmado,
Bendigo o amor que me é dado
E peço que, na partida, me valhas.

Modesto

NESTA MANHÃ



















Quero dar-t' o infinito,
Se me deres, sem um  grito,
Uma cantiga bem pura
Que pareça mais ternura
Do que teu amor aflito.

Quero teu corpo aberto,
Com' o céu sobr' o deserto,
No meu sonho mais contrito.
Como se fosse alegria,
Numa simples sinfonia
Do teu amor bem bonito.

Como rosa enlunada
E que foi por mim plantada,
Na beira do teu jardim.
Ilumina coração,
Na sombra desta paixão
Da manhã ao pé de mim.

Modesto

NÃO TEMAS A VIDA

















Não temas, menina! Enfrenta a vida,
Vai sorrindo com ela até ao fim!
Eu também era assim, na recaída,
Quase um fantoche nas mãos do sem-fim!

Hoje, a vida respeita o meu dia
E, entre mim e ela , será assim.
Antes, ela alguma coisa pedia,
Hoje, a vida só vive para mim.

Quando, persistente, ela me ignora,
Tão tola e pertinaz, quer ir embora,
Eu armo-lhe logo uma emboscada!

Aplico o remédio que ela gosta
E subimos juntos a mesma encosta...
Submissa, segue-me na mesma estrada!

Modesto


VOLTA, MUSA !



















Por onde andas tu, Musa graciosa
Que te escondes na noite orvalhada,
Sobre as névoas, voas vaporosa
E tens a face na sombra mergulhada?

Baixa do céu num vôo harmonioso
E vem ver minha vida desesperada!
Oh! Vem à janela, ser misterioso,
Traz a minha fantasia renovada!

Eu já te procurei desde o sul ao norte,
Não te encontrei... Tu és minha sorte
E, sem sonhos, meu coração desespera!

Eras a estrela, mas te apagaste,
Como estrela-cadente, t' afastaste...
Tu és o mote que minh' alma espera!

Modesto

POEMA MODERNO, SAUDADE

Que saudade do menino que eu era... Ouvia o riso das flores,  Das borboletas no jardim! Até o orvalho tinha cor, O céu sorria de amor! Caía ...