quinta-feira, 15 de outubro de 2015

COMEÇARAM A PERSEGUI-LO

Houve um tempo em que Aquele que agora desprezas estava acima de ti; em que Aquele que agora é homem era eternamente perfeito. Ele estava no princípio, sem causa; depois, submeteu-Se às contingências deste mundo. [...] Fê-lo para te salvar, a ti que O insultas, a ti que desprezas a Deus só porque Ele tomou a tua natureza grosseira. […]

Ele foi envolvido em panos mas, ao levantar-Se do túmulo, libertou-Se da sua mortalha. Deitaram-No numa manjedoura, mas foi glorificado pelos anjos, anunciado por uma estrela, adorado pelos Magos. [...] Teve de fugir para o Egipto, mas libertou esse país da superstição. Não tinha «forma nem beleza» (Is 53,2) diante dos seus inimigos, mas para David era «o mais belo dos filhos dos homens» (Sl 44,3) e resplandeceu no alto da montanha, mais deslumbrante do que o sol (Mt 17,1ss). Como homem foi baptizado, mas como Deus apagou os nossos pecados; Ele não precisava de ser purificado, mas quis santificar as águas. Como homem foi tentado, mas como Deus triunfou, Ele que «venceu o mundo» (Jo 16,8). [...] Teve fome, mas alimentou milhares, Ele que é «o pão vivo descido do céu» (Jo 6,48). Teve sede, mas exclamou: «Se alguém tem sede, que venha a Mim e beba» (Jo 7,37). [...] Conheceu a fadiga, mas é o repouso de todos os que «andam sobrecarregados e abatidos» (Mt 11,28). [...] Deixou que Lhe chamassem «samaritano e possesso do demónio» (Jo 8,48), mas é Ele quem salva o homem que caiu nas mãos dos salteadores (Lc 10,29ss) e afugenta os demónios. [...] Ora, mas é Ele mesmo quem escuta as orações. [...] Chora, mas é Ele mesmo que faz cessar as lágrimas. É vendido por preço vil, mas é Ele quem resgata o mundo e por um grande preço: o seu próprio sangue.

Como ovelha é conduzido à morte, mas é Ele quem conduz Israel às verdadeiras pastagens (Ez 34,14), tal como hoje o faz com a terra inteira. Como cordeiro cala-Se, mas Ele é a Palavra anunciada pela voz daquele que clama no deserto (Mc 1,3). Foi enfermo e ferido; mas é Ele que cura toda a doença e toda a enfermidade (Mt 9,35). Foi elevado sobre o madeiro e nele foi pregado, mas é Ele quem nos restaura pela árvore da vida. [...] Morre, mas faz viver e destrói a morte. Foi sepultado, mas ressuscita e, subindo ao céu, liberta as almas dos infernos.      

(S. Gregório de Nazianzo)



quarta-feira, 14 de outubro de 2015

GOSTAR DA BELEZA





















Muitos gostam da beleza amada,
Por ser raro assombro, com certeza.
Mas só a vê a alma bem formada:
Tem que a procurar na Natureza!

Os dotes naturais de qu' é formada
São filhos da mais pura singeleza
Que, em verso, fazem encantada
Na lealdade, amor e firmeza!

O seu cândido ser eu conheço
Porque seus afectos lhe mereço:
Ela tem o valor que se presume.

Em mim, de amor não morre o lume,
Amo de coração o seu perfume
Da bela Natureza que conheço.

Modesto

terça-feira, 13 de outubro de 2015

BELEZA E AMARGURA




















Existe sempre beleza num' amargura
Secreta e esquecida que é latente,
Oculta em si e a quem a vê obscura,
Ambígua e indecifrável duplamente.

E não é igual à vivência que dura
Que não a pode entender qualquer vivente.
E quanto mais dentro de nós se desfigura,
É como o orvalho ou a brisa rente.

Se a amargura é a voz do acaso,
A beleza traz dois pilares que dão azo
Para nos preparar transacção bem constante.

E à própria beleza tudo foi dado
Para abrir a porta ao juvenil estado,
Para crescer e viver em cada instante.

Modesto

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

FLOR DA ALMA PERCEBIDA
























Brisa da tarde nos florais do campo,
Um cântico de beijos ao relento
Que é coisa de que gosto tanto,
No feitiço d' amor à flor do tempo.

Desse amor eterno à mercê
Duma canção tangida pelo vento
A ressoar na alma, não se vê...
Como amor no som do pensamento.

Queria amor são na minha vida,
Conhecer alma boa e remida,
Alma duma flor ao alvorecer.

E uma canção de ser docemente
Percebida, bem leve e presente
Que pudesse mesmo perceber.

Modesto

terça-feira, 6 de outubro de 2015

IDEAL



















Eu quero encontrar, por onde for,
Um ideal como ânforas de vinho
E beber, como num jardim, a flor
E ser como canteiro de carinho.

Vou amar, com ternura  e jeitinho,
Aos outros dar amor só por amor,
Levantar os caídos no caminho
Sem força, em pânico e em dor.

Serei sonho como amor rendido
Ao destino dum fulano banido
Que já canta sem gozo nem motivo.

Vou levá-lo p'las sendas do amor
Para tenda com jardim em flor
E d' amor venha a ficar cativo.

Modesto


sábado, 3 de outubro de 2015

DE ROMÂNTICO A ANSIOSO



















Romântico poeta dos vinte anos,
Escrevi e deixei versos juvenis.
De alma cândida, já com desenganos...
Eram sonhos que me fizeram feliz.

Extravasei os meus íntimos arcanos,
Junto de belas musas que tanto quis,
E fui projectando sempre novos planos,
Partindo pra me tornar num aprendiz.

Cheguei e encontrei um mestre augusto
Que imaginou onde eu chegaria
Com esse talento jovem e robusto.

Então, quando atingi maior idade,
Disse que me dedicasse à poesia:
Daí veio a minha ansiedade...

Modesto

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

QUE QUEREIS FAZER DE MIM?



















Sou Vosso, Sois o meu Fim.
Que quereis fazer de mim,
Soberana Majestade,
Sabedoria Eterna,
Bondade qu' até m' enferma,
Ó meu Deus, Suma Bondade?
Olhai prá minha ruindade!
Sou pecador, sou assim...
Que ireis fazer de mim?
Eu sei que Vós me criastes.
Também sei que me remistes.
Não sei porque m´atraístes
E tanto me suportastes,
E por mim sempr' esperastes
E me salvastes, por fim!
Que quereis fazer de mim?
Mandai, pois, meu Bom Senhor
Que seja Vosso criado
De tud' o que me foi dado,
Mesmo sendo pecador,
Meu Amado, Bom Senhor!
Vedes-m' aqui fraco, ruim...
Que quereis fazer de mim?
Dou-Vos o meu coração,
Ponho-me na Tua Palma
Com a vida, com a alma,
Com o corpo, afeição,
Deste-me a Redenção!
A Vós entregar-me vim:
Que quereis fazer de mim?

Modesto

AQUELA FONTE

A fonte é um cometa prateado, Uma flauta suave e cristalina, Enche o monte de música divina Dá um tapete verde a todo o prado. Até a ave rús...